Mais histórias de verão
Luis Fernando Verissimo
Já estavam vivendo juntos há alguns anos e decidiram regularizar, de alguma maneira, a situação. Uma formalidade, apenas. Um amigo advogado, um tabelião, duas assinaturas e pronto. Se ela quisesse, poderiam ter algum tipo de cerimônia. Parentes, champanha, talvez uns canapés? Não, que bobagem. Não era um casamento. Nada, na verdade, iria mudar. Assinariam um papel, só isso. Seria um contrato como qualquer outro, como um contrato para dedetizar a casa. Para que sua união significasse um pouco mais do que apenas viverem juntos.
Mas no caminho do escritório do advogado ela confessou que estava nervosa. Por que nervosa?
- Sei lá – disse ela.
E disse:
- Isto está ficando muito sério.
Ele parou o carro e disse:
- Se você não quer, a gente não faz. Esquece a ideia.
- Não, não. É que... – diz ela.
Ela não sabia o que era. Saiu do carro. Ele também saiu e a abraçou. Estavam na beira de um terreno vazio. Um areal. Ele disse:
- Seria apenas uma formalidade. Mas se você não quer...
Ela:
- Você acha que precisa?
- Claro que não precisa!
Ele olhou em volta. A poucos passos deles, um cano enferrujado com uma torneira em cima saía de dentro da terra. O chão em torno do cano estava seco.
- Vamos fazer o seguinte – disse ele.
- Vamos ver se sai água dessa torneira. Se sair...
- Milagre. Saía água da torneira. Ele propôs que os dois molhassem as mãos na água, depois juntassem suas mãos molhadas e jurassem que se amariam para sempre. Pra que advogado, tabelião, contrato?
Sua união não precisaria de mais significado do que aquilo. Estaria abençoada por aquela água milagrosa vinda ninguém sabia de onde, por aquela solenidade secreta que os dois nunca esqueceriam.
- Venha – disse ele – molhe as suas mãos.
Mas ela estava de olhos arregalados, paralisada. Aquela água jorrando daquele cano esquisito, vindo ninguém sabia de onde. Aquele areal no meio da cidade. Por que tinham parado logo ali? E era impressão dela ou todo o ruído do trânsito em volta cessara, como se o mundo inteiro esperasse para ouvir seu juramento? Fosse qual fosse o significado de tudo aquilo, era significado demais.
- Eu, hein? – disse ela.
E depois:
- Agora é que ficou sério!
Não adiantou ele insistir. Ela pediu um tempo sozinha para pensar na relação e não tem atendido o telefone.
TRUFAS
Um amigo comum tanto fez que conseguiu marcar um encontro de James Joyce com Marcel Proust, em Paris, pensando no sucesso que faria depois, reproduzindo a lição de literatura que fatalmente levaria da conversa dos dois escritores. Mas o encontro foi curto e desconfortável e os dois só conversaram sobre trufas de chocolate, contou, desconsolado, o amigo comum – com grande sucesso! A lição da conversa foi que, na literatura, grandes personagens dispensam uma boa história.
AI, AI, AI
Da série “Poesia numa hora destas?!”
“Lua, Lua...” disse o poeta atrás de uma rima ou uma imagem. “Ai, ai, ai” disse a Lua, escolada, “lá vem bobagem”.
Domingo, 9 de janeiro de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.